Essa narração se passa numa metrópole de um lugar qualquer por aí, onde encontram-se residências de alto padrão. Mas isso não é tão relevante para nossa história. O importante é saber quem é a protagonista da vez. Seu nome é Marina, sua idade é a de uma estudante do ensino fundamental e seu tamanho é um pouco menor para o padrão da sua idade. Tinha uma cor de pele bonita e tinha um cabelo de tamanho considerável. Isso também não nos interessa muito.
A pequena Marina gostava de fazer muitas coisas que alguém da sua idade gosta de fazer. Entre seus hobbies preferidos estavam escutar música, correr, jogar terra nos amigos, tomar banho de mangueira e de chuva, desconfigurar os canais da tv e desmontar os brinquedos que ganhava para ver como eles funcionavam. Em contra-partida, logicamente tinha coisas que não eram de seu agrado fazer. E não era nada sobre tarefas escolares, arrumar o quarto ou tomar vacina, o que se esperaria que alguém da sua idade odiasse.
Três dessas coisas eram o café da manhã, o almoço e o jantar. A menina Marina não gostava de comer. Não tinha apetite pelas comidas de seus pais, que sempre estavam inventando cada prato bonito que parecia feito por chefes profissionais. Parecia que a fome não lembrava de atacar o estômago da moça. E quando lembrava estava ela lá beliscando algumas bolachas de água e sal. Para satisfazer a sede servia-se de alguma latinha de soda ou refrigerante e só.
Não adiantava o que seus pais fizessem, Marina rejeitava tudo em seu prato. A salada com verdura extremamente picada, bife bem passado, macarrão com molho de tomate, purê e até batata frita, nada dessas delícias passava pela boca dela. Mesmo que a moça fosse ameaçada de levar umas palmadas, mesmo com o auxílio de remédios para estimular o apetite, nada resolvia esse problema que fazia os responsáveis da Marina se preocuparem com a saúde dela.
Em pouco tempo começou a piorar sua situação. As bolachas e a água gaseificada com açúcar e corante não estava mais sustentando-a. Não tinha mais fôlego para correr, nem força para jogar terra ou vontade de desmontar as coisas. Começou a emagrecer rapidamente, constantemente sentia fraqueza nas pernas e braços, dor de cabeça e sono. Passou a dormir metade das aulas, o que nada agradava aos professores que sempre empunhavam a culpa nos pais da Marina. Mas a culpa daquela situação era dela própria que não colaborava!
A garota chega no seu limite. Alguns dias depois ao voltar da escola acaba perdendo a consciência quando está a abrir a porta para entrar. Marina é então levada às pressas para o hospital mais próximo, onde recebe os primeiros socorros. Depois fazem nela uma bateria de exames e os resultados não eram dos melhores: desnutrição, anemia, desidratação e perda de cabelo eram alguns dos problemas de saúde que a garota possuía.
Marina terá que ficar internada e em observação por alguns dias. Seus pais bem que tentaram, mas a moça era rebelde. Agora estava nas mãos daqueles profissionais de saúde orientar Marina, que ia ter uma dieta nutricional com aditivos de suplemento em suas refeições. E alguns remédios também. Só receberia alta quando estivesse com o peso e a saúde normalizadas, o que parecia que ia demorar bastante devido às suas condições, estava tão fraca que não suportava ficar de pé por muito tempo.
Estava ela angustiada de ter que ficar naquele leito de hospital sem ter muito o que fazer. O televisor ali tinha sintonia muito ruim, e lá não tinha wi-fi... queria Marina ter pelo menos uma companhia para passar por aquele aperreio. Quando menos se esperou, em três horas chegara naquele quarto outra garota que assim como Marina teve problemas com comida. Nada a ver com sua falta em seu organismo, mas sim o excesso de alimentos nada saudáveis para qualquer um em qualquer idade consumir exageradamente.
Essa chegou na emergência numa situação pior que a da Marina. Tinha acabado de voltar de uma cirurgia urgente pois sua respiração e seu coração pararam de responder. Foi direcionada para esse leito para também ficar em observação e repouso. Ia ser medicada, tratada e estaria brevemente de alta. Também teria uma reeducação alimentar forçada, para evitar que tivesse outro colapso.
Marina cumprimenta sua nova colega de quarto, que também se chamava Marina. Curiosa como qualquer pessoa na idade escolar, a garota pergunta para a garota ali acamada qual foi a causa dela ter ficado dodói. A veterana disse que desmaiou na porta de casa e quando acordou tinha sido levada para lá. E tudo porque ela não gostava de comer, não sabia explicar porquê mas ela não sentia vontade de desjejuar ou ceiar.
Marina achou aquilo absurdo! Como assim aquela garota não gostava de se alimentar? Comer era uma das coisas que mais ela gostava!! Aquilo não lhe cabia na cabeça. Tudo bem, depois de ouvir aquele absurdo era sua vez de contar sua trajetória até aquele quarto. Os principais responsáveis por ela ter quase partido dessa para uma melhor era o excesso de sal e de gordura que ela consumia. O que com certeza entupiu suas artérias.
No seu relato Marina também confessou ser sedentária, só levantava da cama para comer e usar o banheiro, ou para ir à escola. Outro problema era o cigarro: os pais da Marina 2 costumavam fumar com muita frequência, até durante as refeições, o que fazia a menina inalar toda aquela fumaça tóxica e fumar passivamente. Tanto é que muitas vezes Marina sofria com ataques de asma e rinite.
As duas Marinas logo tornam-se amigas e compartilhadoras de leito. A da asma é tagarela demais, contava todo tipo de história real ou fictícia para a menina das bolachas. Era uma garota divertida. E bastante responsável tanto com ela quanto para sua xará, pois logo tratou de anotar e lembrar sua companheira os horários para tomar os medicamentos, dispensando o auxílio dos enfermeiros, que só tinham a função de trazer as refeições das pacientezinhas na hora certa.
Que comida vistosa! Mesmo não sendo tão boa de gosto quanto coxas de frango encharcadas de óleo ou macarrão com queijo e molho de tomate e pão com salsicha, mas com certeza Marina ia ter vontade de experimentar. Então a missão será servir a amiguinha pacientemente até ela aprender a saborear a comida e não ter que passar por aquele constrangimento de novo. Ela vai ver só o que sua teimosia estava fazendo ela perder.
Haja paciência! Marina era irredutível nos seus pensamentos. Não colaborava com a amiga, sempre cuspia a comida em seu rosto. Ou jogava o prato no chão, fazendo-a ficar desapontada com o esforço em vão. Contudo em seu pensamento aquela má fase da colega ia passar e ela ia entender que o que ela fazia era para seu bem, para as duas saírem daquele hospital o quanto antes.
O que restava para a Marina fazer era ajudar a amiga fraca a tomar banho e a entretr com alguns jogos que seus pais lhe trouxeram. Ensinou para Marina como jogar damas, trilhas, vinte e um e truco. Quando não era isso, estavam as duas montando um quebra-cabeça de cinquenta mil peças. Marina também conseguiu ajustar a imagem da televisão do quarto para que ambas assistissem quando enjoavam dos jogos analógicos.
A amiguinha da Marina era excepcional! Menos quando era hora da comida, pois era quando ela lhe enchia o saco. Tanto é que a pequena já impaciente com a persuação da Marina tenta fugir dali. Ainda fraca das pernas resolveu dar um pique, o que resultou numa fratura no osso da perna. Que dolorido! Agora ela não poderia mais como escapar da sua amiga e pior: teria que engessar o membro machucado e ficar em cima de uma cadeira de rodas até cicatrizar o osso. Ia demorar mais para ter alta? Talvez sim, e por sua culpa!
Naquela noite na hora de jantar a Marina engessada ficou muito sentida e começou a chorar escandalosamente, imaginando se ela nunca mais iria andar. Finalmente a paciência da outra Marina foi-se. Ela começa a ralhar com a chorona, dando pesadas broncas. O que ela estava sofrendo ali não lhe passaria se ela não fosse teimosa ou enjoada. Se ela comesse mesmo que um pouco ajudaria com os suplementos que tomava.
Pior tinha acontecido com ela, que quase perdeu a vida por maus hábitos e veio a infartar. Não estava resmungando por isso, estava usando o tempo da recuperação para rever sua saúde. Marina terminou a conversa dando-lhe um tapa bem dado na cara e avisou: -Se você não se acertar nunca mais ia ver seus pais, vai daqui direto pro cemitério, vai ficar enterrda para sempre e não ia poder mais brincar, estudar ou fazer o que gosta.
Marina foi dormir traumatizada depois dessa bronca. Acordou no dia seguinte mais cedo que sua companheira e sem a ajuda dela foi pilotando a cadeira até o banheiro para se lavar. E também sem a ajuda da Marina tomou seus suplementos e comeu sua refeição da manhã totalmente, assim que o doutor a serviu. Inacreditável, a dura que ela recebeu tinha surtido efeito. Que ela continue assim então.
Chega o dia que a Marina faladora recebe alta. Agora a outra garota ficaria sozinha, a amiga continuaria seu tratamento em casa. Tudo bem, a garota já estava mais forte e começava a ganhar peso. O cabelo parou de cair e estava voltando a crescer e o osso da perna tinha se calcificado. Também, o fato de ela não gostar de comer era apenas coisa do seu psicológico. Bastou um choque na sua mente que a Marina conseguiu lhe fazer.
Foi só uma semana a mais para a Marina 1. Foi liberada assim que alcançou o peso ideal. Estava bem diferente de aparência, de apática e cansada passou a ser mais enérgica e alegre. Tinha aumentado a sua atenção e concentração, e voltou a praticar seus hobbies preferidos. E o mais importante, começou a se alimentar corretamente, e para a alegria dos pais sempre estava querendo experimentar coisas novas.
E a outra Marina? Por coincidência acabou trombando com a amiga na escola que estudavam. A matraca foi logo contando o quanto sua vida mudou para melhor depois da sua mudança de hábitos. Passou a consumir menos sal e menos alimentos gordurosos. Tomou vergonha na cara e passou a dar caminhadas todo final de tarde, e fazer alguns exercícios leves. Da parte de seus pais o trauma de quase ter perdido a filha fez com que eles largassem o vício do fumo.
Antes que Marina ousasse quebrar aquele monólogo a garota ali faz um convite para que a amiga visitasse-a ainda hoje em sua casa para continuarem aquele quebra cabeça praticamente infinito, ou para jogar monopólio, ou talvez até umas aulas de xadrez, qualquer coisa. Marinazinha acena um sim com sua cabeça já cheia novamente com fios lisos e brilhantes, e pergunta para ela: -Qual vai ser o lanche?
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