sexta-feira, 26 de março de 2021

A garota e o rio

  Era cedo de manhã, bem cedo, o sol acabara de nascer. Nayume, estudante do ensino fundamental que não acostumava acordar tão cedo já estava despertada por causa de um pesadelo que teve nessa madrugada, e não conseguia dormir mais. Logo tratou de fazer seu desjejum pois estava faminta.

Muito tempo faltava para ir à escola. Resolveu então ligar a tv para assistir um pouco. Que tv? Lembrara ela que o aparelho estava no conserto. Assim nem seu console ela poderia jogar. Mesmo que sua família fosse de classe média havia apenas um televisor na residência.

Que tal mexer no computador do irmão? Melhor não, ela poderia levar um cascudo dele. Música nem pensar, ia acordar a casa toda. Celular? Descarregado! Até as tarefas já estavam todas feitas. Oras, vamos pra escola então, é o jeito.

Manhãzinha fria, ela põe a roupa da escola e o casaco e partiu. A rua estava escura e deserta, estava muito nublado, dava para se ouvir a brisa batendo nos galhos das árvores frutíferas. Como Nayume queria subir naquelas goiabeiras para pegar frutas! Se conteve porque o ato ia lhe sujar as roupas e não queria chegar toda sujinha no colégio.

A moça tinha tempo de sobra. Resolveu portanto pegar um caminho alternativo: por trás da rua da escola onde passava um rio com águas cristalinas, mais limpas que as águas que saíam das torneiras das casas. Se via ao longe os peixes pulando! Um belo pedaço de natureza encrustada no cantinho daquela cidade.

Correntezas à parte, o rio coincidentemente desemborcava numa pequena lagoa atrás da escola, coisa que Nayume nunca havia percebido. Pudera, o caminho de sempre era sempre pela frente, atravessando ruas movimentadas e barulhentas. Bem diferente de hoje que pouco se ouvia tão cedo.

Como aquela menina adorava água! Sempre que ia à praia com a família fazia birra para não sair do mar. Ficava toda enrrugada e vermelha do sol (não gostava de usar protetor solar). Sua mãe até a matriculou nas aulas de natação na piscina do clube que ela era sócia. Começava a esquentar à medida que ia amanhecendo mais e a neblina passou.

Nayume resolve então dar uns mergulhos na água até dar a hora da aula. Ela tira sua farda e casaco e os coloca na mochila para não molhar. Partiu só com sua roupa de baixo para dentro da água ainda gelada, nem se tocando que sua lingerie branca transparecia ao ser molhada. Foram 20 minutos de diversão aquática até que de longe ela sentiu uma presença.

Era seu professor que olhava-a com a maior cara de desprezo. Num instante ele chama a atenção de Nayume que com espanto pula de dentro da água rasa e se enrola numa toalha que ela havia preparado de antemão para se enxugar. Antes que ela pudesse se vestir  seu educador a agarra pelo braço e a leva até a diretoria, para pegar um papel de suspensão, só entraria com os pais.

Que absurdo! Não havia motivo plausível para aquilo, já que ela não estava matando aula, nem era hora, e também que mal fazia tomar banho de rio? Nayume resmungando pegou a suspensão e retornou para a casa dela. Ao ver que seu pai estava de folga do serviço logo ela explica o que lhe ocorreu e entrega-lhe a folha para ser assinada. Quase que de imediato ele pega a filha na mão e volta com ela até a escola.

Lá ele conhece o professor que tinha suspenso Nayume injustamente, e lhe dá o maior sermão. O professor fica sem jeito mas como o pai da aluna tinha vindo a garota pôde assistir às aulas normalmente. Mesmo que já tivesse perdido duas delas. Tempos depois a direção da escola foi informada da situação constrangedora à qual a aluna foi submetida, e resolveram afastar o responsável pelo incidente.

Mas também sobrou para Nayume: pensando novamente em madrugar para aproveitar o banho de rio (dessa vez usando o maiô das aulas de natação), viu que da noite pro dia aquele local fora cercado com arame farpado e eletrizado!! Que ódio sentiu ela naquele momento! Foi para a sala toda cheia de desgosto esperar o professor subistituto que estrearia hoje. Outro dia de aula chegado ao fim, hora de voltar ao lar.

Nayume ficou surpresa ao chegar: estava lá montada no quintal uma piscina inflável gigante que seus pais haviam comprado para ela! O desgosto na hora virou felicidade refletida em seus olhos. Depois de agradecer bastante foi logo atirando a farda no chão e foi aproveitar a piscina nova, somente de lingerie de novo (dessa vez um conjunto azul claro) e lá ficou até a hora da janta. Nem deu bola para a televisão que voltara aquele dia do conserto. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

POSTAGEM FAVORITA DA GALERA