quinta-feira, 17 de junho de 2021

A garota do metrô


Era dia de trabalho. Lá ia eu novamente pegar condução para chegar até a empresa onde eu sou funcionário. Primeiro o ônibus que sempre está lotado, nunca consigo uma cadeira para sentar. São quinze minutos no aperto e no calor até chegar na estação metroviária.

O trem também sofre de super lotação, porém como eu sempre o pego na primeira estação tem sempre assento disponível. São mais quinze minutos até o destino. Sempre com o barulho intenso dos pedintes e comerciantes clandestinos que ganham a vida vendendo de tudo no trem.

No meio daquela confusão sempre via uma pequena e tímida vendedora de doces. Uma garota de pele escura muito bonita, de cabelos cacheados e olhos azuis. Que judiação! Tão nova e já a colocaram para trabalhar! Deveria estar na escola com as outras crianças de sua idade, mas todos os dias estava lá tentando ganhar seu dinheiro.

Chamei-a para perto para conversarmos. Perguntei porque ela que estava ali vendendo os doces, e não seus pais. Ela começou a me responder: -É porque meu pai não tem condições... ele adoeceu da coluna e não pode fazer esforço. E minha mãe fugiu com outro rapaz e nunca mais voltou. Papai fica em casa cuidando dos meus outros 6 irmãos mais novos enquanto eu saio para vender doce.

A situação era muito delicada. Queria poder conversar mais com a garotinha mas a minha estação estava chegando. Comprei toda sua mercadoria, mas deixei que ela ficasse com os doces para ela fazer o que quisesse com eles, ou os vendia ou os comia. Era clara a expressão de felicidade no rostinho dela... Desci do trem e ela lá dentro só acenando para mim...

A partir desse dia toda vez que a pequena me via no trem vinha me cumprimentar. E falava sempre sua grande família, suas aventuras no metrô e sua vontade de frequentar a escola. Sempre que eu podia dava um bom dinheiro para ajudar a situação difícil que sua família vivia.

Em uma oportunidade lhe fiz um convite: como eu ia ter uma folga do serviço perguntei se ela queria visitar minha casa. Minha filha que tinha a mesma idade dela ia ficar contente de ter uma amiguinha para brincar com  ela. E também um dia de descanso daquele trem seria bom para a saúde da pequena vendedora de doces do metrô.

-Claro que vou sim, senhor. Se papai permitir eu visitarei sua casa com muito prazer. Estarei  aqui amanhã no horário e estação de sempre. Estou ansiosa para conhecer sua filha e poder brincar com ela, já que não tenho nenhum amigo. Apenas quando estou em casa que me divirto com meus irmãozinhos enquanto tomo conta deles.

No dia combinado fui à estação onde ela costumava frequentar. Estava bem arrumada, com uma roupinha que parecia ser nova. E tinha colocado um perfume bem cheiroso. Levantou-se do banco onde estava sentada e veio ao meu encontro. Demos as mãos e fomos pegar o ônibus.

Lotado como sempre, só tinha uma poltrona vazia. A garota foi sentada no meu colo, que pesada! Muitos vão me taxar de tarado ou estuprador, mas num ônibus cheio de gente onde não havia lugar para sentar eu não ia deixar a coitada viajar em pé.

Chegamos em casa, a menina estava impressionada com o tamanho do imóvel, que nem era tão grande assim. -Que casa grande senhor, só essa sala é do tamanho da minha casa todinha! A garota fitava tudo com seus olhos arregalados. Perguntei se ela queria lanchar alguma coisa. Ofereci torradas acompanhadas de leite com café, que num instante ela comeu.

-Onde está a sua filha?  -Veja se ela está lá em cima naquele quarto. A garota subiu e bateu a porta do quarto da minha filhota. A pequena loira de cabelos lisos, pele branca e olhos castanhos puxados do pai, que habitava naquele cômodo, ouvindo as batidas resolve perguntar:

-Quem é que está  batendo? É o senhor, papai? 

-Não, é uma amiga que veio para brincar!

-Mas não convidei nenhum colega de classe para brincar comigo

-Seu pai me convidou para vir conhecê-la. Posso entrar?

Minha filha olha pela fechadura. Resolve abrir a porta para a garota entrar no quarto. Não sei por qual motivo ela começa a dirigir palavras ofensivas e preconceituosas para a  nossa pequena visitante, talvez porque a garota tivesse uma cor de pele diferente da cor dela. Mas não esperava que minha filha fosse racista.

-Olha só, papai me comprou uma escrava de estimação. Quanto ele pagou por você?

-Não sou escrava, sou uma garota normal como qualquer outra!!

-Ah, com essa cor de lama eu pensei que  fosse! Aliás, vai encardir meu quarto com essa sua pele!

-Cor de lama nada, meu papai diz que pareço uma barrinha de chocolate!

-Tá mais para o que o chocolate vira depois que é consumido! Aliás, some de volta para a África comer suas bananas, filhote de macaco!

-Quer saber, eu não quero fazer amizade com uma menina egoísta e racista como você! Quero voltar pra minha humilde casa, não fico aqui nem mais um pouco!

Dito isso, com cara de revolta ela desce as escadas. Como as duas falavam alto eu já sabia o que havia ocorrido. Peguei a morena pela mão e voltei com ela até a minha filha, se ela não fosse honesta com a visita e pedir desculpas a sandália ia trabalhar no seu couro. O sermão estava preparado. Ela demora um pouco para abrir a porta...

-Que história é essa de ofender nossa convidada? Não tem vergonha na cara? O que ela fez de mais? A cor da pele não determina o caráter. Todos somos diferentes, cada um tem sua cor e personalidade que foiam puxadas dos parentes. Agora me diga: lhe agradaria se alguém lhe chamasse de lagartixa anêmica, esqueleto, cabelo de macarrão por causa da sua aparência?

-...

-Sua mãe não se orgulharia de sua filha, nem de ter confiado a sua guarda a mim, onde quer que ela esteja deve estar desapontada comigo porque não a eduquei direito. Deve estar se lamentando por sua filha ter virado uma pessoa má intolerante com quem é diferente. Bem, é isso, Vou esperar você lá embaixo para pedir desculpas. Vamos.

Que vergonha minha pequena sentiu. O rosto branco como o gesso ficou totalmente vermelho. Ela fica refletindo sobre suas agressões verbais direcionadas à outra menina por uns minutos e se dirige a sala. Tinha deixado se levar pelos maus exemplos que tinha copiado dos colegas.

De frente para o sofá onde sentávamos a garota do metrô e eu ela se ajoelha com a cabeça apoiada no piso gelado da sala. Estava com a cara de arrependimento mais convincente do mundo. Ela começou a pedir perdão para mim, para a visitante e para sua mãe. Estava realmente envergonhada pela grosseria gratuita

-Por favor, me perdoem por eu ter sido preconceituosa e mal educada. Minhas palavras foram indelicadas e insensíveis para convosco. Não quero nunca mais magoar ninguém com a minha arrogância. Errei e reconheci meu erro, quero aprender com isso a me comportar melhor... é isso!

-Está desculpada. Da próxima vez não vá julgar os outros pela aparência... o melhor a se fazer é tentar conhecer as pessoas e tentar fazer amizades. Como entre seu pai e eu. Toda vez que ele vai trabalhar nós ficamos um tempão conversando comigo no vagão do trem. Vamos tentar de novo, pode me falar seu nome?

 -Eu... eu me chamo... E... Erika... e você?

-Eu sou a Angela. Vamos ser amigas?

-Eu.. aceito!

As duas se abraçam. Rapidamente já estão conversando e dando risadas entre si. Passam a tarde toda no videogame, até umas 17 horas. Pergunto para a Angela [então essa fofinha tem um nome tão fofo quanto ela e eu não sabia].

Os três sentados na mesa, a moreninha não pára de falar sobre suas aventuras humildes. Dessa vez a Erika que arregala seus olhos cor de mercúrio. É filhota, você tem o privilégio de ser criada em berço de ouro. Sorte de ter um pai que também é uma mãe para você. Sorte de ter como único trabalho a escola.

-Uh, olha como é tarde... é hora de te levar para casa!

 -Aah, ela já tem que ir papai? Logo agora que estávamos nos divertindo muito!!

-Eu volto outras vezes para brincar, basta nossos pais deixarem. Já sei, que tal você ir me visitar na próxima vez? Minha casa é pequena e barulhenta, mas é aconchegável! Aí você conhece meu pai e meus irmãos. A propósito, onde está sua mãe mesmo? Ainda não fomos apresentadas!

Erika aponta para cima, nas nuvens

-Sinto muito pelo ocorrido...

-Tudo bem, papai disse que ela está num lugar bonito e alegre. Ah papai, já que você vai levar a Angela para a casa dela, poderia me levar de companhia? Eu me sinto muito solitária aqui sem ninguém para conversar comigo. Apesar da mamãe sempre está aqui me protegendo...

Erika fez seu pai, eu, escorrer algumas lágrimas com seu sentimentalismo puro. É, não tinha criado mal a minha filha afinal de contas. Peguei as duas e fomos. Não até a estação onde Angela vendia doces, mas até a casinha dela. No caminho eu flagro a cena mais doce que a mercadoria da jovem.

-Então é verdade que você parece chocolate? Quero provar! <lambida na bochecha da Angela>

-È? então você deve ter gosto de leite, deixa eu ver! <lambida na bochecha da Erika>

Chegamos na pequena casa. Lá estava o pai da Angela já preocupado com ela. A mesma o tranquiliza e apresenta-nos. O senhor agradeceu por sempre ajudar sua família e tratar sua primogênita bem. Mas eu não estava satisfeito com o que a pequena Angela passava todos os dias.

Foi quando ofereci uma quantia enorme de dinheiro para ele operar as costas, em troca da garota não precisar mais ter que vender doces. Trato feito! Uns dias se passaram e a cirurgia foi feita. Logo depois da recuperação ele tomou o lugar da Angela, que ficou responsável pelo cuidado dos seus irmãos. Já tinha experiência nessa área, menos perigosa que vender fora.

Agora todo o sábado eu levo a minha filhinha para visitar a Angela, ou ela vinha nos visitar. Agora a pequena morena só aparecia no metrô para viajar até nossa casa. E enquanto a minha pequena Erika... toda vez que ia dormir se ajoelhava em frente ao retrato de sua mãe e, em suas orações, sempre agradecia pela nova amiguinha... Agora ela não estaria mais sozinha enquanto o papai não estava...

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