sexta-feira, 23 de abril de 2021

A dor de barriga

  Eram 16 horas. Minha pequena estava assistindo a televisão atentamente, esperando a janta ficar pronta. Foi então que eu percebi que faltavam alguns ingredientes para terminar de cozinhar e só havia nós dois em casa... Bem, bem, devo levar ela comigo para o mercado, somente para fazer companhia? Ah, tá, a danada não gostava de sair comigo... Fica aí quieta então assistindo seus desenhos e veja se não incendeia a casa que logo eu volto. 

       Ela prometeu que ia comportar-se,  despediu-se de mim e voltou para a frente da tela chuviscada do aparelho de tubo. Mas todos sabem que criança não sossega quieta no lugar... Prevejo a zona de batalha que a casa vai ficar quando eu voltar do mercado, mas o que custa dar um voto de confiança para ela. Logo estava a moça na cozinha procurando o sete para pintar!

Naquele lugar, naquele local era lindo o cenário: álcool 96, facas, água sanitária, isqueiro... tudo ao alcance das mãozinhas curiosas da garota. Mas isso não atraia mais a menina que já cortou e queimou a pele com esses instrumentos. Ela almejava outras aventuras menos perigosas e arriscadas. Quando de repente na sua frente um objeto chamou a atenção dela. E foi explorar ele!

O alvo da vez era a geladeira. A fome a atraia até aquele recipiente mágico. Abriu a porta. E se surpreendeu com o tanto de gostosuras armazenadas lá dentro. Bem em destaque havia um bolo de chocolate gigantesco todo recheado e decorado, daqueles dignos de confeitarias luxuosas.

 A sapeca nem pensou duas vezes: começou a devorar o bolo por inteiro. Para eu aprender a não esconder as coisas gostosas só para mim. Mas o bolo era para todos, seria a sobremesa do jantar. Ela o comeu todo!

Satisfeita ela volta para a sala com a maior cara de inocente. Mas seus lábios e bochechas cheias de recheio de leite condensado condenavam ela. Chego eu da feira com as verduras para fazer sopa para o jantar, e vejo a bandeja do bolo toda amassada em cima do balcão.

 E a cara da minha maninha toda lambuzada de chocolate. Ela pula do sofá espantada com a minha pergunta sobre quem tinha comido o doce. Ela não falava, apenas escutava o sermão que eu lhe dava. 

Com cara de quem ia chorar, acertou um chute nas minhas partes sensíveis e se trancou no quarto.Ignorou meu chamado para jantar, ela estava irritada por causa da bronca que eu lhe dei. Pode ter sido exagerada? Talvez. Mas se eu não a repreendo ela hoje, amanhã ela pode virar uma delinquente que bate na própria família. Não vou insistir, ela deve estar estufada de tanto bolo comido. Deixa ela esfriar a cabeça.

21 horas, ela finalmente sai do quarto, às pressas. Direto para o banheiro. Chegando lá começou a dar altos gemidos de dor. O bolo tinha lhe causado uma grande dor no estômago. Recebeu o que mereceu por ser desobediente e gulosa. Todavia fiquei preocupado. Bati a porta do cômodo para perguntar o que aconteceu.

Ela falou que a barriguinha dela estava doendo muito, estava queimando, e ela tinha vomitado no quarto. Meia hora passada no banheiro ela resolve se lavar pois havia se sujado com suas fezes amolecidas. Pegou uma toalha e correu de volta para o quarto, quase escorregando na cerâmica por estar com os pés molhados. Deitou na sua caminha e começou novamente a gemer e chorar com dor na barriga.

Apareci logo em seguida com uma xícara de chá para sua dor estomacal. Mandei abrir a porta, ela obedeceu. Já vestida e deitada na sua cama ela aceita tomar o remédio caseiro que eu fiz, depois de convencê-la que sua dor ia diminuir. Também fiz a caridade de levantar sua camiseta para poder massagear seu estômago com uma pomada para relaxar. Quanta dor ela devia estar sentindo a ponto de chorar! Aos poucos ela foi se acalmando, no que aproveitei para limpar o vômito que estava na minha frente.

Era hora da mãe chegar da empreiteira. A porta do quarto estava aberta, causando o flagrante. Mas como não era nada de mais apenas lhe expliquei o que a moça tinha feito, logo ela ia deixar para lá. Mentira, na mesma hora ela tira o cinto e quer bater na garota. Eu simplesmente pulei por cima. Não precisa de tamanha violência, eu já tinha resolvido tudo conversando, e ela já tinha recebido o castigo pela consequência do seu ato. Deixa ela descansar e refletir sobre o mal que ela fez a si própria...

A dor de barriga da minha irmã pequenina passou pela manhã. Ela foi pessoalmente me agradecer pelo chá e pela massagem. E se desculpar pelo bolo. Hum... agora ela vai sair comigo para comprar os ingredientes para fazer outro bolo. Mas dessa vez ela nem quis saber de comê-lo, ficou apenas nos sanduíches do café da manhã!

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