domingo, 14 de novembro de 2021

Roubando o supermercado

  Nikita e Natanaelski são dois irmãos com quase a mesma idade. Eles moram junto com os pais na parte mais periférica da cidade, em uma casa simples e pequena com poucos cômodos, carente de reformas. Era o que dava para ter dada as condições de desemprego naquela família, raramente os adultos conseguiam algum bico ou serviço temporário.

Os irmãos se viravam como podiam. Para comer um pão ou um doce juntavam garrafas, papel, plástico ou alumínio. O dinheiro era dividido com os pais que inteiravam para comprar mistura na mercearia, que não estava mais querendo fazer fiado por estarem devendo uma quantia grande de dinheiro. Com frequência a única refeição do dia era apenas um prato de feijão com farinha, com uma salada de folhas nascidas no quintal da casa.

Muitas vezes a pequena Niki e o pequeno Natan deixavam de ir à escola porque não tinham jantado no dia anterior, ou iam com o cinto apertado só esperando a hora da merenda chegar para comerem e repetirem até ficarem satisfeitos. Quando dava eles levavam alguns recipientes para levar sopa ou pão para casa, e vez ou outra seus colegas de classe dividiam seus lanches com eles.

Mas hoje não é dia de aula, e mais outra vez os armários e a despensa estão cheios somente de ar, na geladeira só há garrafas de água e na estante o dinheiro contado para pagar a luz que está atrasada e pode ser cortada a qualquer momento. O único jeito é os dois irmãos saírem para pedir comida por aí, enquanto os adultos vão atrás de levantar algum dinheiro para comprar a alimentação do dia, talvez da semena se der.

Que péssimo dia para Niki e Natan saírem por aí pedindo esmola. O dia começou bastante chuvoso, poucos feirantes apareceram para montar suas vendas, e dos que estavam lá muitos nem se compadeciam da situação dos pequenos irmãos. Ora davam as costas para eles, ora lhe ofereciam vegetais ou frutas totalmente impróprias para consumo humano ou animal. Uma total falta de compaixão até por parte dos escassos compradores presentes na feira.

A próxima parada foi a rodovia onde passavam a todo instante carros, motocicletas e outros veículos, a maioria em altíssima velocidade. Mais crueldade para cima dos nossos protagonistas: motoristas maldosos passavam com o automóvel pelas poças, encharcando e enlameando os dois. E quando ganhavam alguma moeda sempre vinha alguém maior para tomar, ou entregavam de boa ou na base do cascudo. Ao menos um transeunte ofereceu uma toalha para eles se secarem.

A situação era tão desesperadora que nem nas caçambas de lixo se encontrava comida, pois o caminhão da limpeza pública tinha passado há pouco tempo recolhendo todos os resíduos. O eestômago dos dois irmãos começa a roncar de fome, tão forte que Niki começava a chorar desesperada. Natan tenta acalmá-la dizendo para aguentar mais um pouco, ainda tinham um local esperançoso para irem, um supermercado que havia no outro lado da avenida. Lá eles poderiam ter mais sorte.

Não aconteceu nada disso, os dois pareciam invisíveis para a sociedade. Natan se revoltava com aquilo tudo, apenas queria poder oferecer para a irmã qualquer coisa para ela comer e se acalmar. Era doloroso para ele ver a pequena sofrendo. Eis que Natan, novamente enxugando as lágrimas da Niki com a toalha que lhe fora dada de doação, decide tomar uma medida drástica. Se ninguém queria dar, iam tomar na marra, iam roubar aquele mercado.

Nikita se assusta com a ideia do Natanaelski, jamais ele teria pensado antes de maneira tão radical e desonesta. Mas eles foram tratados também desonestamente, desumanamente, aquilo seria um tipo de vingança pelos mau-tratos que causaram à eles. Não os notaram antes, não os notariam agora, ainda mais com aquele supermercado cheio de gente circulando.

O plano estava todo idealizado, eles apenas tinham que tomar cuidado para não serem pegos em flagrante. Iriam pegar algumas gostosuras que tanto amavam daquelas prateleiras, preferencialmente produtos pequenos que fossem fáceis de esconder. Natanaelski aproveitava que sua irmã usava um vestido longo para esconder os objetos do furto ali em baixo, com o auxílio da pochete que eles usavam para guardar as moedas recebidas e também usando o sutiã que a pequena vestia. 

A alegria dos irmãos dura pouco. Em um vacilo a Niki deixa um pacote de biscoito mal posicionado cair no chão. Um funcionário do estabelecimento percebe que os dois estavam roubando e sorrateiramente se aproxima deles, agarrando um braço de cada um dos irmãos, os arrastando para o fundo do mercado. Natan consegue chutar o funcionário e se soltar junto com sua irmã, e ambos começam a correr. Contudo Nikita tropeça e cai, e é capturada novamente.

Já um pouco distante o menino olha para trás e não vê a Niki. Talvez o malvado tenha pego sua irmãzinha, era melhor pedir ajuda. Então Natan corre mais um pouco até um posto policial ali perto para que socorressem ele e a pequena, que nesse momento tinha sido levada até uma sala mal iluminada e sem janelas, cheia de mofo e poeira, quase igual à um porão. Lá ela começou a sofrer torturas psicológicas vindas do homem que a flagrou, até começar a chorar mais uma outra vez.

Outro funcionário é chamado para fazer-lhe uma revista. Não satisfeitos com tudo aquilo tiveram a ideia mais perversa de todas. Sem mais nem menos, enquanto o primeiro segurava Niki o outro enchia uma bacia com óleo fervente provindo do fogão daquela salinha. As mãos da pequena foram mergulhadas sem dó naquele líquido quente, fazendo ela agonizar e gritar alto tamanha a dor, ainda assim estava desesperada e preocupada com o que pudesse ter acontecido com o Natan.

Em alguns minutos seu irmão chega acompanhado de um policial e o gerente da loja. Uma aglomeração de curiosos se forma na entrada da sala. O oficial pergunta aos rapazes o porquê da garota estar sendo mantida confinada ali e naquelas condições. Foi-lhe explicado que ela e seu irmão ali foram pegos em flagrante furtando mercadorias. Pois é, aquilo não era justificativa para prender e torturar alguém, ainda mais se tratando de crianças indefesas.

Ao verem as mãos da Niki com grandes queimaduras deram de imediato voz de prisão para os dois indivíduos. Antes de levarem os rapazes o gerente trata de fazer um curativo nas mãos da menina, depois os irmãos pegam uma carona de viatura até em casa. Lá, ao encontrar seus pais, o policial explica  o que aqueles moleques haviam aprontado. A cara de Natan e Nikita caíam de vergonha, não tinham conseguido comida e ainda tinham arrumado uma tremenda confusão!

Levaram uma tremenda bronca dos responsáveis. Estavam, todavia, arrependidos de ter feito aquilo sem pensar nas consequências, arrependidos de não raciocinarem na hora da fome. Pediram para voltarem ao mercado para pedir perdão pelo furto feito. Dito e feito, o gerente aceitou suas desculpas, e por serem honestos ao confessar seu erro foram reconpensados com um pacote de biscoitos para cada. Mas não era só isso que os pequenos receberiam.

O gerente pediu o endereço da casa dos irmãos. No dia seguinte ele chega lá junto com o proprietário do supermercado, que para ressarcir os danos causados à Niki com as mãos queimadas, ofereceu-se para pagar qualquer custo relacionado ao tratamento dela. Também ofereceu indenizá-los com uma grande quantidade de dinheiro, fora seis meses de cestas básicas para a humilde família moradora daquele subúrbio.

Mas o que mais os deixou contente foi a oferta de emprego aceita de bom grado pela mãe e o pai das crianças, desde que sobrara duas vagas deixadas pelos funcionários presos. Natan abraçava sua irmã todo alegre, enquanto tinha a cabeça acariciada pelos pais. Nikita se ajoelha e não pára de agradecer. Agora ela e o irmão poderiam ir para a escola com a barriga cheia e prestar atenção nas aulas. Bom, por enquanto Niki vai esperar até as mãos sararem. Mãos que jamais voltaram a tocar naquilo que não lhe pertencia.

POSTAGEM FAVORITA DA GALERA